quinta-feira, 5 de maio de 2011

Destruindo o inimigo dos Estados Unidos.

A morte de Osama Bin Laden nos permite uma reflexão a respeito da importância que a imagem do "inimigo" exerce nos Estados atuais. O conflito entre diferentes países sempre foi uma forma de ampliar e expandir não só territórios, mas também o poder exercido por aquele, ou aqueles, que saem vitoriosos do embate.
A defesa contra inimigos - externos e internos - seria, segundo Thomas Hobbes, uma maneira de fortalecimento interno do Estado, uma vez que o contrato que garante a existência do Estado só é possível porque os contratantes - neste caso os homens - passam para a figura do soberano - que pode ser tanto um indivíduo, como um grupo - todos os seus direitos em troca da garantia da segurança, ou seja, em troca da garantia da proteção de suas vidas contra os perigos aos quais eles ficam sujeitos, como, por exemplo, ataques de grupos externos. Se levarmos o pensamento de Hobbes ao contexto vivido atualmente nos Estados Unidos fica evidente que uma das formas que este Estado utiliza para garantir a sua soberania é a guerra, já que é através dela que se tenta proteger o povo norte americano de possíveis ataques estrangeiros.
A cada momento histórico as configurações internacionais apresentam-se de forma distinta, sendo que no intervalo dos últimos 10 anos, o ataque terrorista de 11 de setembro demarcou o surgimento de uma nova "figura inimiga" norte-americana, Osama Bin Laden. A busca por este homem representou, de certa forma, a busca pela derrocada do terrorismo mundial e, mais especificamente para os norte-americanos, uma maneira de proteger seus cidadãos que já haviam sofrido um ataque prévio. A garantia da soberania americana mostra uma de suas vertentes na defesa de sua população através da execução de um importante inimigo externo. Mas é importante lembrar que Osama representava a configuração internacional atual, de maneira que conforme as relações internacionais sejam alteradas, surgirão outras "figuras inimigas".
Em Maquiavel, tem-se a ideia de que todos esses conflitos gerados nos 10 anos subsequentes pelos Estados Unidos foram agora justificados. Em outras palavras, para manter a soberania do Estado e para manter o controle sobre os demais, as guerras e as mortes de civis realizadas pelo governo norte-americano são justificadas.
Além disso, há duas versões da incessante busca norte-americana em eliminar Osama Bin-Laden e ambas estão na mesma figura: o líder dos EUA. Independe se é G. W. Bush ou Obama, mas ele sempre terá para os americanos a face de piedoso e para os outros de cruel. Para os primeiros, líder nacional é aquele que pegou para si a dor de todas as famílias e, a partir disso, vai à busca da verdadeira justiça e a faz com as “próprias” mãos. Já para os segundos, a crueldade do mesmo chefe é grande, tendo feito guerras durante dez anos e matado civis. Isso tudo e feito porque é muito mais seguro afirmar a soberania de um povo sobre outro – custando o que custar – do que não o fazer.

2 comentários:

  1. Antes de tudo, devo dizer que escolhi esse texto, porque a morte do Osama, foi algo que eu li muito sobre e refleti devido aquele seminário de geografia dos Estados Unidos.

    Encarar os dez anos desde 2001 e o atentado, até a morte de Osama, é passar por uma grande reviravolta dentro da política externa dos Estados Unidos, de um unilateralismo exarcebado na era-bush, para uma política que se mantém pragmática (pelo menos ao meu ver) mas possui uma face mais multilateral e aberta a negociações com o Obama, mas mesmo essa diferença drástica não foi capaz de enfraquecer a determinação em encontrar o dito cujo do Osama, o que apenas reforça a importância do ataque terrorista na memória coletiva.

    Olhando sob o prisma maquiavélico, não diria que as guerras são justificáveis porque foram meio para manter a soberania do Estado e o controle sobre os demais, mas sim, porque tanto Bush como Obama, souberam se utilizar da fortuna que se lhes apresentou, uma extremamente complicada e negativa, para reforçar a coesão social e a ordem sobre os americanos, utilizando o artifício da guerra que se seguiu após o ataque de maneira extremamente virtuosa. Como nos princípios Hobbesianos, o inimigo, foi construído e utilizado para reforçar o poder interno estatal, de fato, todos americanos se sentiram compelidos a lutar e vingar o acontecido e o Leviatã materializou essa vontade na forma da guerra.

    Em relação as faces piedosa e cruel do soberano, o povo americano realmente tem essa visão da necessidade das guerras e da vingança como forma de justiça, no entanto, um outro mérito que a liderança dos Estados Unidos conseguiu foi o da comoção mundial com o ataque, de maneira que uma certa ''legitimação'' pudesse ser construída mesmo fora do território norte americano quanto as guerras ao terror, e mesmo a forma como o Osama foi morto, sem julgamento. Cruéis mesmo, com certeza os povos que sofreram as represalias americanas e foram invadidos, tendo sua soberania violada e vendo milhares de civis serem mortos consideram os norte-americanos.

    Adorei o texto e o assunto, parabéns
    Jessica Castilho Castro

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  2. A discussão da morte do Osama definitivamente demonstra, pra mim, a maior inversão de valores, motivos, princípios e tudo possível que os EUA já tiveram a cara de pau de provocar em prol de interesses próprios.
    Definitivamente, pensando de acordo com as proposições de Maquiavel, os dois presidentes que fizeram parte efetivamente do processo fizeram realmente de tudo para manter sua soberania - Mas, a questão, é que soberania é essa aqui? Que soberania será que qualquer Estado como o Americano tem chance de manter quando, na verdade, o suposto soberano está absolutamente submetido à interesses econômicos e até mesmo políticos muito maiores do que ele? aos quais ele deve respeitar se tiver qualquer pretensão de continuar a fazer parte do show americano... Me parece que, no contexto atual, os governantes agem maquiavelicamente para legitimar e proteger uma soberania que não mais lhes pertence... Será, então, que aquilo tudo se justifica?!

    Da mesma maneira, será que as concepções hobbesianas podem ser igualmente aplicadas? Já que, mais uma vez, não era de fato a preocupação com a segurança do povo que movia as decisões presidenciais. Nunca foi. Criou-se todo um mito de terrorismo mundial, como se todo sujeito que se chamasse de terrorista fosse necessariamente um Osaba, um árabe, um muçulmano, enfim - e criou-se o mito porque era interessante provocar um ódio muito específico contra um grupo étnico que detinha a maior reserva petrolífera do mundo - Nada aqui foi por acaso e muito menos por segurança. Como sobre Maquiavel, dessa vez os conceitos de Hobbes se aplicariam não exatamente à um cuidado com os súditos, mas um cuidado com algo infinitamente mais interessante: dinheiro e poder.

    Ambos os casos sugerem que os Estados contemporâneos estão bastante distantes de adotar qualquer moralidade ou valor ético que promova tanto a manutenção de sua soberania quanto a segurança de sua população... É improvável que uma coisa tão finita e substituível como um (dois, três, quatro, cinco...) indivíduos possa competir com o inestimável valor da hegemonia e do capital.


    Júlia

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